“Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verdes na sombra, entusiasmo do branco, ouro dimanado — música, música. Pinta-se às vezes, sim, ás vezes levita-se, outras alguém sussurra ao ouvido.” Herberto Hélder.
O que a Inês Vaz oferece, sempre que senta o acordeão no colo, tem o nome de embalo. Seguro, quente, melódico, flexível, suave mesmo quando o faz respirar aos estremeções.
“Timeless Suite” é o primeiro trabalho discográfico de Inês Vaz e propõe-nos tomar chá num encontro, feliz e intemporal, entre os compositores que interpreta e os nossos tímpanos.
Bach e Scarlatti sentam-se à sua direita. Beethoven, Rossini, e Saint-Saens à sua esquerda. Enquanto Gismonti e Angelis ocupam os lugares ao centro. Inês Vaz, ela própria compositora e mestre de cerimónias, abre o programa com “Timeless”, uma peça notável inicialmente composta para musicar um filme de Buster Keaton. Segue-se a vez dos restantes convivas apresentarem prelúdios, sonatas, estudos... e o ouvinte a deliciar-se...
Este é o mesmo acordeão das romarias, da memória dos nossos pais e avós. Inês Vaz toca-o mantendo imaculada a genuinidade dos dedos, mas realizando um voo de fole por universos musicais, aparentemente, inesperados para este instrumento, tão rico em possibilidades como em timidez. Já ouvimos dedos terem extensões de teclas. “Timeless Suite” Inês Vaz traz-nos o acordeão tocado na extensão de um abraço sem tempo.
José Rodrigues Cardoso